Confessionário Literário, 19/09/2013




Estreando meu confessionário, agora sim, posso falar mais à vontade, depois de muito ter trabalhado antes e durante a Bienal, gostaria de deixar aqui, minhas experiências vividas durante este período que foi importante para mim em todos os aspectos, pois marcou minha carreira de maneira inesquecível, e em determinador momento (graças a Deus, foram poucos) trágica. 
Em muitas vezes me vi por lá, chorando escondido, sentia saudades de minha neta que havia viajado antes de mim, para uma terra onde Judas perdeu as botas, chamada Sinop. Já cheguei no RJ adoentada, pois havia sofrido uma crise alérgica confeccionando os enfeites do estande. Já no Rio, estava sem voz. Mal pude gravar o Fala Tudo no primeiro dia. Aos gritos, consegui fazer o que podia. Estava meio acanhada, um mal que carrego comigo desde menina, mesmo com o desejo intrínseco de chacolhar a pessoa e sufocá-la de beijos e abraços, me reservo na timidez de uma escritora que ainda consegue se soltar apenas no silêncio de sua escrivania. Revi pessoas que jurei um dia não querer ver nunca mais, após uma briga. Mas o sentimento  por dentro é tão grande e verdadeiro, que ao abraçá-la de novo percebi que a amizade é algo valioso, que não se compra em qualquer esquina, e não se vende, não se troca, não se perde... Por outro lado, quase vi alguém que não desejava ver, pois não suporto pessoas ingratas e da personalidade desse ser que aqui descrevo, para a minha sorte, quando tive a oportunidade de vê-lo, eu virei o rosto com toda certeza do que queria, para sentir meu real conforto. 
Convivi com duas meninas maravilhosas trabalhando com a gente no estande, e então percebi, que do outro da telinha ainda é possível se encontrar pessoas verdadeiramente sinceras, e que gostam de você a troco de nada. 
O problema era que o RioCentro era o paraíso no meio do inferno. Sim! Nunca vi lugar mais longe de tudo. Fiquei numa pousada há duas quadras da feira, ia a pé (vantagem), porém, ali nada se tinha após a feira. Passei comendo miojo durante os dias à noite.
Na segunda noite lá, precisei ir ao hospital. Diagnóstico - infecção nos brônquios. Com a voz muito rouca e comprometida, pensei mesmo em seguir o conselho de uma autora e me comunicar escrevendo, mas insisti falando, e as coisas pareciam piorar.
Estande muito cheio, televisão passando por lá, autores de todos os lados, o que denominou nosso cantinho como "o cantinho dos autores".  Conheci alguns famosos e tive a oportunidade de conversar rapidamente com eles. Nesta mesma semana, em todos os noticiários da grande Rio, falava-se de nosso estande, o que me fez pensar que valeu a pena ter adoecido de tanto trabalhar para sentir na pele aquele resultado.
Meus autores estavam felizes, pelo menos, foi o que vi saindo dos olhos deles. Alguns desencontrei, outros, reencontrei. 
A passeata foi a melhor coisa que vivi em toda a Bienal. Lá gritei por todos os anos que guardei a voz, com vontade de expor minha revolta, meu desejo de crescer contido, reprimido por medo do que os outros iriam pensar. Mesmo com a voz capengando, cantei, brinquei, gritei; eu desejei a mudança, segurando o banner do CNA, como sempre quis em minha vida, mostrando as pessoas que poderiam as coisas darem erradas em certos momentos, mas que a vontade era tanta, tanta, e de alguma forma, essa vontade mudaria algo, nem que fosse dentro de mim.
Assisti a momentos chatos... Assisti uma escritora pouco conhecida, mas de orgulho nobre, humilhando outra escritora, como se o que ela estivesse fazendo naquele momento, fosse o grito que dei na passeata, mas usado de forma errada, contra a pessoa errada - não somos adversários! Estamos do mesmo lado, seja pobre, seja rico. Seja conhecido ou não - somos iguais no mundo literário. Não podemos derramar nossa arrogância, rudeza, amargura por aí assim, aos quatro ventos, com o desejo de se aparecer. Achei ridículo, estúpido e grotesco. Infelizmente, algumas pessoas se colocam em nosso caderninho negro imaginário, por sua conta e vontade. 
Como nada são flores, e no final de tanto sucesso que foi essa bienal, sempre tem alguém ou algo que vem com força para azedar o seu doce, mas graças aos deuses literários, essa força bruta dentro de ambientes assim é tão menos forte, que nada mais pode nos envolver mais do que o clima experimentado entre os livros e leitores. 
Minha hora de autógrafo foi uma piada. Aliás, não foi. Com tanto atraso no momento de autografar, acabei cedendo meu horário para que nada se atrasasse mais do que estava, e acabei ficando sozinha, última dia da bienal, nove e meia da noite, não tinha nem leitores naquele momento por lá, a não ser os expositores e pessoas que trabalhavam no local. Sei lá, o orgulho e ego tomam de nós a oportunidade de pensar melhor sobre tantas lições, e minha primeira reação foi sentir vontade de chorar. Então olhei para trás e vi tudo que havia acontecido, tudo que havia sentido. O tanto que nós lutamos para chegar até uma bienal. Eu, uma escritora brasileira desconhecida, escrevia escondido de todo mundo, escondia os textos debaixo do colchão, estava ali, numa bienal do livro, o sonho de qualquer autor que estava começando a escrever naquele dia, por que chorar? Fui para o hotel pensando nessas coisas, e antes de dormir, ainda com os olhos ardendo, peguei o computador e comecei a escrever meu novo livro.





4 comentários :

  1. Uauuuuuuuu! É por isso que eu amo vc e me espelho em seu caráter e humildade. Uma pessoa, ou melhor, uma exímia escritora que consegue emocionar com suas palavras merece todo o carinho e respeito do mundo.
    Obrigada por compartilhar esse momento com pessoas, que assim como eu, não puderam estar na Bienal, mas ficaram de longe torcendo por todos os escritores brasileiros, mas principalmente pela família MODO, que eu defendo com unhas e dentes e amo por ter aberto as portas para alguém como eu, tão parecida com você Adri... Escrevi sem que ninguém soubesse, chorei quando ninguém deu importância ao meu talento, guardei durante anos em cadernos e depois em pendrives, mas um dia achei a editora parceira que vc ajudou a construir. Beijo enorme e muito sucesso na sua jornada!

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  2. Simplesmente emocionada com cada palavras escrita para esse post, momentos seus que muitos que estiveram lá de repente não tenham notado, mas que em poucos minutos podemos ler através de cada palavra, o mar de sentimentos que foi a Bienal, para você. Não fui a mesma, mas vi muitas notícias nas redes e a admiro por se mostrar tão humana, digo isso porque hoje muitas pessoas vivem de aparência ou se acham mais que os outros. E você com nobres palavras nos mostra que é uma pessoa batalhadora e corajosa. Uma pessoa que a cada dia brilha mais diante de nós leitores e de muitos escritores também. Como foi um grande prazer vê-la um dia na Odisseia de Literatura Fantástica em POA,e conversar com você, hoje sinto o quão especial és. Por falar nesse evento, lembro de ter comentado sobre você não ter estado presente esse ano para minha amiga. Adri vocês são notados onde quer que estejam, pois carregam um luz que os tornam inesquecíveis. Obrigado por esse post, finalizo ele com admiração maior ainda de quem és. Beijokas Elis!!!
    http://amagiareal.blogspot.com.br/

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  3. Sim, tudo tem o peso e o momento certo... Lindo, sonhado... Há sonhos que somam, há sonhos que dividem.
    Sorte de quem é capaz de somar. Sempre!

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  4. E nesse momento passa um filme na minha cabaça... Emocionante!

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