Passou por mim


Os sentimentos escapuliram por alguma pequena fresta do engano.
Eu sabia que você existia. Eu quase poderia sentir suas mãos em mim ao ver a imagem congelada de seu corpo numa tela fria de computador. Eu ouvia a sua voz e desejava imensamente entrar pelo orifício imaginário do fone por onde emitia meus sons de anseios e volúpias que preenchiam minhas noites pobres e vazias. Eu ria apenas para escutar meu riso. Eu me sentia feliz e não sabia dizer se era uma cópia fiel do que esperava de mim um dia, numa morna expectativa de ouvir passos chegando, tocando em meu ombro, num abraço possessivo, quase sufocante, apenas para me sentir um pouco de alguém. 
Sua voz me induzia ao que eu não poderia duvidar. As palavras cuidadosas. A procura momentânea, que mesmo superficialmente, havia  se tornado o prato do dia. Eu tinha no meu corpo as sensações de uma droga poderosa que se diluia no sangue, correndo para os vasos cerebrais a ponto de não me deixar comer ou dormir, eu queria apenas você. 
No desespero de ter o que não podia tocar, inventava situações que me dessem a sensação de me prender as suas pernas. Assim ficava horas e horas, ancorava à deriva do que era ter seu amor. Seu amor que não vinha, enquanto ouvia numa falsa aceitação, os pedidos que como  ordem  me dedicava a cumprir - eu precisava moldar o que ninguém conseguia entender em mim, e você corria com medo de ser colocado num calabouço obscuro onde somente as piores almas existentes em minha vida, foram acorrentadas. Talvez eu não soubesse amar ao ponto de me permitir a ser alguém mais simples. A minha complexidade e fúria ávida por querer sentir e tocar tudo que lhe pertencia, a mesma que me tirava o sono e a fome, eram o motivo do fato evitado. 
Os sonhos quase infantis, as ânsias que não foram contidas na absoluta disciplina que transforma seres humanos em meros soldados de alguém, foram dissolvidos no esquecimento, no tempo, na distância, na insensatez, eu não era o que você esperava, e nem de perto fora alguém que eu poderia associar aos personagens criados no brio do que considero felicidade.  

2 comentários :

  1. Um texto muito bem escrito, mostrando as mudanças trazidas pelas tecnologias e a dependência que tais meios podem deixar no ser humano, transformando a naturalidade do concreto na artificialidade do abstrato. Parabéns Adriana. Bjs!

    ResponderExcluir
  2. Perfeito! Impressionante como me vi por entre trechos escritos acima, como pode enxergar meus desejos, meus anseios, minhas vontades sul-reais. Aguenta coração... Se prepara para mais uma historia surpreende. Obrigada Dri por compartilha comigo. Amo tu tá?

    ResponderExcluir