Meu Senhor - parte 1


1ª parte



CAPÍTULO 1

As ruas estreitas, rodeadas por casas feitas de pedras e os jardins minúsculos e bem pensados fazem parte do cenário construído em torno do castelo, cujos pecados jaziam por detrás de suas paredes, que ecoavam sussurros lascivos, e no ar pairava o cheiro perverso de noites intermináveis.
Homens meramente comuns não ultrapassavam tais portões gigantescos feitos do puro bronze e polidos com esculturas rústicas.
Os olhos curiosos apoderavam-se do castelo, era proibido passear pelos arredores as mocinhas virgens, prometidas ou compromissadas. Pais e esposos impediam que os olhos de suas protegidas fossem dirigidos à propriedade, para que não caíssem em tentação.
A entrada era somente permitida aos convidados e hóspedes, estranhos aos costumes corriqueiros da cidade. Eles vinham de outras regiões desconhecidas e adentravam os portões, ora ao som de risadas estridentes, ora apenas com olhares escondidos debaixo de chapéus e vestimentas extravagantes. Tudo era motivo para comentários e burburinhos, que não poupavam de julgar qualquer ato em torno daquela propriedade como um escândalo, mas o certo é que ninguém sabe o que acontece ali.

Charlote caminhava com os olhos fixos em cada detalhe da muralha esculpida por silhuetas femininas, uma delas tinha o seio farto à mostra, depositado na mão de um senhor alinhado que lhe apertava o mamilo. Havia correntes desenhadas em torno dos pés da mulher que pareciam brilhar, mesmo na superfície fosca. Seus braços estavam para trás, amarrados de forma bela, quase uma obra de arte a cada volta. As mãos pareciam vivas e cheias de desejos.
A moça apertava o lábio, sem se importar em ser vigiada por algum habitante maledicente. Os olhos continuam percorrendo toda a extensão da muralha, perdendo-se em pensamentos que jamais tivera antes. Naquele momento tão fascinante, fora atraída de forma descomunal. Ouviu vozes logo atrás de si, e então acelerou os passos, tentando desviar o olhar. Logo estaria na escola, onde lecionava para alunos na faixa etária de doze a dezessete anos. Abriu seu guarda-chuva e tentou se concentrar no que iria fazer ao longo daquele dia. Fechava e abria os olhos, tinha a respiração ofegante e, as mãos, suadas. Teria de esquecer e não se preocupar com o que sua razão não podia decifrar. Ela não os via, mas sentia um par de olhos a observando de algum lugar. Podia sentir suas vestes sendo retiradas de seu corpo, e uma respiração quente aquecendo seu pescoço. Com sofreguidão e passos lentos, seus dedos apertavam firmemente o saiote do vestido, como se quisesse sentir as unhas atravessando a pele, até que num único suspiro entre a ardência e o calor, sua consciência a despertou daquele fascínio que a tomara de assalto.
Passou uma das mãos sobre a nuca, recompondo-se, jamais sentira algo igual. Ainda sentia a palma quase ferida pelas unhas, ardia, mas num arrepio que mantinha seus mamilos rígidos. Seu corpo casto jamais sentira algo igual... seu noivo, mesmo nos momentos em que estiveram a sós, nunca se atrevera a tocá-la de tal forma. Agora fechava os olhos em descompasso, desejava voltar para descobrir quem era o dono de tais olhos pecaminosos que atormentaram seus desejos mais secretos.
O ruído, seguido de um estrondo no céu, fez com que seu coração disparasse. Mesmo de longe e correndo debaixo de pingos graúdos da chuva, seu corpo ainda estava aquecido por um fogo interno e crescente. Ainda podia sentir os olhos a vigiando. Não poderia ser apenas imaginação ou alguma sensação sobrenatural causada pelas imagens observadas no muro do castelo. Ela não sabia dizer, mas tinha certeza de que o que sentira era real e causado por uma pessoa estranha, que sequer saberia o nome ou qualquer característica física. Também não esperava que fosse alguma reação das lendas que ouvira dizer sobre o local. Embora fosse nova ainda, sabia que seus instintos de mulher aflorariam e a despertariam para o mundo de sensações proibidas.
Mil sensações percorriam seu corpo, mas seu dilema era sempre o mesmo, ajudar no sustento da família, que veio do campo. Jamais conhecera o luxo das grandes cidades, sequer havia saído de seu rincão ao longo de seus vinte e dois anos de idade. Os vestidos eram na conta de três. Um era reservado para o culto, realizado aos domingos na pequena capela do povoado. Em época de rigoroso inverno, ela retirava do baú seus casacos feitos de pele de lã de carneiro. Sua avó quem os fazia, na pequena propriedade da família.
O corpo, franzino, era moldado pelos longos cabelos claros que lhe davam um ar angelical ao cachearem nas pontas. Os traços delicados e olhos extremamente azuis vinham do pai. Os lábios corados traziam a leveza de um beija-flor. A combinação com o rosado das bochechas de menina tímida era perfeita. Como dizia sua mãe, excessivamente religiosa, Charlote fora agraciada pelo divino ao aprender com facilidade tudo que se predispunha. Estudou para ser professora, e para tanto tinha talento e paciência. Era o orgulho da família. Menina nova e prendada, excelente mulher para o homem que desejasse encher a casa de crianças saudáveis e fortes.
Prometida a Inácius, moço de boa índole e humilde, que trabalhava no campo de sol a sol, para juntar o que ganhava no propósito de se casarem o quanto antes. Tinha pressa em ter nos braços a jovem tão prestimosa, pobre, porém prendada, sabia coisas que qualquer outra moça de posse da região não conhecia, graças a companhia dedicada de sua tia vinda de fora.

Desceu a colina sentindo os joelhos se encostarem um ao outro, enquanto as coxas pressionavam a vulva, que incendiava sua roupa debaixo. O atalho que desembocava fora do castanhal acabava num promontório rochoso, cuja extremidade pendia para a torrente. Urzes cobriam o solo, mas nesta terra estéril, uma faia encontrara um meio de se deitar sobre as raízes e desenvolvia-se o suficiente para cobrir, com sua folhagem, uma antiga capela dedicada ao santo patrono da região. Estava mais ou menos reduzida a ruínas e, pelas estreitas e escancaradas janelas pelas quais passava, os pássaros ali entravam para fazer novos ninhos.
 Tentava pensar em algo que distraísse sua mente e amenizasse o rubor da face, para melhor se apresentar aos seus alunos, mas algo a perturbava grandemente... As imagens do muro do castelo misterioso e os olhos que a vigiavam, nada saía de sua mente. Entre suspiros e poros ainda arrepiados, chegou à sala de aula, abriu a porta de madeira antiga às pressas, e arfou enquanto os fios dourados surrupiavam do coque, em desalinho.
— Boa tarde! — Mal conseguiu pronunciar, o que causou a impressão de que a senhorita chegou ofegante, por ter chegado quinze minutos atrasada.

Ao chegar à sua casa depois da aula, Charlote segue pensativa para seu quarto. Precisa fazer algo a mais para ajudar sua família. Abre a janela de madeira e contempla os rouxinóis pousando no galho do ipê que fica ao lado de seu quarto. Sentia-se feliz, mesmo em tais circunstâncias. Dentro de si, uma esperança parecia não desanimá-la. Algo poderia ser feito, afinal, não existiam conflitos sem soluções, contava com a sorte para descobrir alguma saída que salvasse seus entes da fome. Estava disposta a qualquer coisa.



A chuva fina escorria pela vidraça da sala de aula. Logo estaria em sua casa, mas antes precisava passar no armazém para comprar a pequena lista solicitada pela mãe, que a entregara juntamente com o dinheiro que a própria Charlote havia fornecido. O sino tocou e os alunos saíram, alvoraçados, antes mesmo de serem dispensados. Num suspiro, ela desistiu de adverti-los.
Com o olhar um tanto perdido, pegou alguns cadernos e livros, e os ajeitou dentro de sua pasta. Reforçou a trança que havia no cabelo, pegou o guarda-chuva e seguiu para seu destino. Caminhava enquanto olhava seus sapatos, passaria novamente na frente do castelo, poderia desviar o caminho se desejasse, mas essa não era sua vontade. Mordeu os lábios e continuou, como se não percebesse a euforia que comichava os dedos das mãos.
Minutos depois, já podia observar a grande muralha do castelo. Novamente olhou para os desenhos e, em seguida, para o portão da entrada. Era para ela a expressão solitária de um lugar morto por fora, se não fosse a energia que fazia vibrar cada célula de seu corpo.
Olhou para os dois lados antes de se aproximar, e contou os passos que a levavam para perto do que queria sentir sem pensar, apenas ousaria um pouco mais, era o que todo seu corpo desejava. Com cuidado, encostou a mão alva no frio da textura do portão, e sentiu uma descarga que fazia seu corpo vibrar como pequenos choques. Não parecia real, mas a sensação somente crescia dentro de si. Fechou os olhos e seu corpo estremeceu ao ouvir um ruído. Alguém parou a carruagem por detrás de suas costas. Suas pernas tremeram... Fora pega de surpresa, não havia para onde correr e nem uma desculpa para justificar sua curiosidade. Jamais fora motivada por desejos ocultos, desconhecia completamente a origem de tudo que sentia.



Seu corpo frágil e trêmulo ficou imóvel com a presença magnânima de quem quer que fosse que estivesse atrás dela, não sabia agora que sua boca secara, e que seus dentes chegavam a bater um no outro. A têmpera suou, e os dedos apertaram discretamente a saia do vestido. Sentia medo e uma sensação de abatimento na alma.
— Posso ajudá-la em alguma coisa? — Ouviu a voz grave.     
O som da voz entrou instantaneamente por seu ouvido e esparramou-se por toda a pele e internamente, ativando os sentidos ainda não descobertos.
— A mademoiselle está precisando de ajuda? — A voz insistiu. Então uma mão grande e firme tocou em seu braço, forçando-a a se virar. Tentou manter os olhos abertos, mas aos poucos convalesceu, fechando-os sobre os cílios espessos. Quando o corpo parou num ponto fixo, abriu os olhos vagarosamente, tinha a sensação de ter morrido e nascido novamente em algum lugar desconhecido.
— Sente-se bem? — Insistia ele, que agora tinha um rosto firme, moldado por uma barba bem-feita, sobrancelhas grossas e olhos na cor âmbar, profundamente marcantes, levemente puxados, com uma pequena pinta abaixo do olho direito, que quase insignificante estava ali para dizer algo que Charlote, naquele momento, não conseguiria decifrar, por mais que desejasse.
O cavalheiro alto vestia-se com elegância na roupa preta e camisa branca com jabot, na mão, uma bengala dourada envelhecida coberta por madrepérolas. Tinha a pose de um rei, um deus, ou estava muito enganada quanto às suas impressões.
— Sim... — Foi somente o que conseguiu dizer. O olhar dele era perturbador, do mesmo modo como fora observada certo dia, mas não tinha certeza se era ele.
— A mademoiselle... quer que a leve para casa? Creio que não esteja em condições de caminhar... — Ele disse, sem saber ao certo como ajudá-la, mas percebeu que a menina parecia meio perdida, sem saber para onde ir.
— Eu... eu preciso comprar algumas coisas para minha mãe... – disse, com a lista de compras na mão – E... e depois... vou para casa. Não... o senhor não precisa se incomodar, eu estou bem.
— Está bem? — Sua mão, ainda no braço dela, apertou um pouco mais, o que a fez abrir os lábios como se fosse dizer a palavra certa para se expressar, mas nada conseguiu. Só queria se retirar daquela situação desconfortante.
— Sim, Senhor, estou bem. — Tentou encerrar o assunto, e o cumprimentou com a cabeça, seguindo para algum lugar que a tirasse daquela situação.
Andando às pressas, não percebeu que ficara para trás o pequeno estojo de tecido, que guardava a chave da escola e um documento de identificação. O senhor o pegou do chão, levou-o até os lábios e perdeu o olhar na imagem delicada de Charlote, que desaparecia no mais profundo vácuo de incertezas, num andar inocente. Sorriu. Sua intuição nunca falhava... Os olhos brilhavam intensamente. Ele sabia que este era o melhor modo de fazer suas escolhas. Abriu o portão do castelo, ainda olhando para a direção que ela desaparecera, tinha a certeza que era sua desde quando a menina nasceu. A energia e tudo que vinha do ser que habitava nela, dizia ser ela a menina que tinha o sinal na pele, a qual ele tanto procurou em todas as outras. 


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Inspirações físicas

Charlote


Aragorne Tirel





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