Meu Senhor - parte 2



Leia a parte 1 Aqui

Apsel arrumava sua cama com preocupação aparente no rosto. Ajeitou sua veste e amarrou a tira da sandália em torno da canela cor de jambo. Pegou o papel, a tinta e a pena. Precisava cumprir sua tarefa antes de vencer o prazo de seu castigo. Desanimada, olhou para o chão ao se ajoelhar, não adiantava se manter indiferente, ela o amava mais do que tudo... deixou tudo para trás para servi-lo, porém, sua personalidade ousada e atrevida muitas vezes a levou para o isolamento de seu quarto. Já se passaram três dias que ela estava presa ali, no dever de escrever trezentas vezes: devo obedecer o meu Senhor Aragorne Tirel.
A pele ardia pelo contato com o sal grosso que estava sob a canela. Estava sentada sobre as pernas para escrever. Conseguiria cumprir, não era a primeira e nem seria a última vez. Logo ele estaria diante dela, podia imaginar a mão de seu Senhor estendida, nada a consolaria mais do que beijá-las e receber o carinho merecido. Dedicou-se fielmente, apesar do gênio ruim, o que mais desejava era ter seu amor submisso reconhecido pelo seu Amo, mas havia o afrontado nas últimas semanas. O egoísmo e orgulho não a deixavam ser vista como slave. Aragorne havia se decepcionado pelo modo como ela vinha se apresentando. Não era uma mulher comum para sentir ciúmes. Ele a havia escolhido devido a sua lealdade e cumplicidade, esperava dela o melhor dos momentos. Esperava ansiosamente que ela se desabrochasse como uma das mais genuínas meninas de seu clã, mas Apsel deixou ser levada pela vaidade, e hoje sentia na pele o peso do desprezo de seu Dono.


Senhor Aragorne Tirel atravessava os corredores Sivianos, os quais dividia com mais dois nobres Marqueses, Lorde Olaf Lamont e Marquês Fendis Niord. A atmosfera e disputa pela posse do trono eram conhecidas desde os primórdios, onde os antepassados dos três Lordes também derramaram sangue no mesmo local, à busca do título e poder soberano da casta de Siv, nome dado ao castelo, administrado ultimamente pelo planeta Old até que se defina o trono. Siv, o planeta dos Sivianos mortos, está em órbita com o Sol, ao lado oposto da Terra. A ligação entre o castelo, Old e o planeta se dá através do Portal Sagrado da entrada, e a energia que os dominadores utilizam para as práticas realizadas entre as paredes daquela fortaleza é um costume seguido por muitas gerações, cominadas pelo prazer sexual sádico, que para eles era sagrado, e fortalecia a tradição de Siv.  
Os homens Sivianos são dotados de energias e poderes sensoriais. Conseguem a adoração de uma mulher capturada, literalmente, do dia para a noite através da hipnose. Sabem transformar com facilidade uma escrava rebelde em uma obediente submissa. A forma como olham para suas mulheres, que dissipa a construção de qualquer resistência ou pudor e as colocam aos seus pés, com a mais sutil naturalidade. Em geral, se relacionavam de forma muito mais intensa e pessoal do que os homens comuns.
Aragorne Tirel possuía a habilidade da dominação psicológica, deste modo submetia suas escravas a ponto de fazê-las perder a vontade própria e viverem somente por devoção, amor e paixão a ele. Era um amante incondicional devido à forma como tocava sua presa, olhando-a por dentro a ponto de revirar os sentidos. Mas seu coração era isolado por uma energia protetora, que não deixava infiltrarem sentimentos mais fortes. Estava em busca do cordão com a Medalha Tetragrammaton. Não sabia o motivo, mas fora recomendado por seus antepassados por escrito, nas cartas que deixaram ao Marquês, além da herança e confiança neste, ao título de Siv.


Marquês Fendis Niord educava sob o chicote e práticas sádicas. Sentia prazer em ver a escrava se contorcer aos seus pés, falindo à rebeldia. Não fazia questão de relacionamentos regidos pela paixão, pois esta se encontrava no próprio prazer pela dor causada e a entrega após as marcas pelo corpo. Era o mais cruel, porém, o que melhor conhecia o corpo e os limites de suas escravas.
Lorde Olaf Lamont era o único devotado aos estudos, tanto da dominação quanto das práticas sádicas. Brigith fora a única submissa adotada após meses de observação. Nunca se arriscou em colocar outra em seu lugar. Ele fora o Mestre, o Dono devoto e cuidadoso da falecida. Conheceu o amor em sua forma mais ampla e sensível, julgou não mais amar.

A moralidade Siviana baseia-se em desigualdades, acreditam que homens e mulheres são diferentes em alguns aspectos. Esta é uma moral de dominantes, homens viris, de personalidade forte, que favorece a Honra, a Coragem, a Dureza e a Resistência. A convivência não era para todos, sobretudo, para as mulheres, elas precisavam passar por um longo período de provas, entre o aprendizado de danças, postura comportamental e corporal e progresso moral e cultural. Antes de tudo, uma escrava necessitava ter a leveza da alma espantada em seu sorriso, mesmo diante do açoite ou da perda de seus direitos.
Desejar estar ali era uma mera vaidade. Os desejos todos pertenciam apenas aos Senhores. E, a eles, era dado o direito de escolha. Cada slave tinha um significado especial para o coração de seus Donos. Cada qual era única e insubstituível, como um raio de Sol que brilha apenas uma vez do mesmo modo e no mesmo lugar. Ela deveria aprender a entregar seus desejos em favor de seu Senhor, ao invés de procurar prazer ou recompensa por sua servidão obstinada. Um erro irremediável era colocar as suas próprias necessidades e vontades acima das de seu Mestre. Muito deve se empenhar na melhoria de sua entrega. A beleza é um elemento imaterial, não é reconhecida apenas e tão somente pela aparência física, mas por tudo que ela pode fazer de melhor, ou seja, a forma de caminhar, se expressar e de atender às ordens a ela confiadas. Senhor Aragorne Tirel dizia que a beleza de sua menina era vista apenas por cegos de olhos e Magos na percepção extra-sensorial.

A porta fez um ruído. Ela reconheceria até mesmo a sombra de seu Mestre. Reconhecia o som das chaves na fechadura, quando eram manejadas pelo Senhor. Ajeitou os cabelos crespos e olhou para sua folha, que ainda faltava dezenas de frases do castigo imposto. Lamentou-se em silêncio.
Aragorne entrou no quarto, inquieto, e com os olhos carregados de piedade secreta, jamais deixaria que ela percebesse o quanto se sentiu magoado pela última afronta. Apsel havia passado dos limites. Na última semana, fora pega no corredor do castelo, investigando onde se encontrava a mais nova menina de seu Dono, que estava escondida em algum cômodo secreto. Em sua túnica, ela escondia um veneno poderoso, capaz de matar em segundos, até mesmo um grande animal. Era uma armadilha para eliminar a possibilidade de ter uma irmã de coleira. Sua paixão desenfreada era sua maior inimiga. Ela poderia ser a mais leal das escravas, caso fosse do mesmo modo, obediente e humilde, mas tinha em si a personalidade acentuada.

O Lorde se aproximou do corpo mulato ajoelhado aos pés da cama. Ensaiou um gesto para acariciar seus cabelos, e se reservou, colocando o braço ao longo do corpo muito alto.
— Fez o que lhe pedi? — Perguntou em um tom de poucos amigos.
— Estou quase terminando, Senhor. — Ela respondeu, sem olhá-lo nos olhos.
— Ah sim... e por que ainda não terminou, menina? — Ele quis saber, duvidando do melhor desempenho dela.
— Estou tentando fazer o meu melhor... é que estou cansada, Sir. Minhas pernas estão ardendo...
— Já não era tempo de ter acabado? Acha que merece minha misericórdia depois de tudo que ouvi de sua boca?
Apsel parou a escrita, fez gesto de se levantar, fazendo uma expressão no rosto que entregava a dor nas pernas.
— Não se atreva a levantar! Quer ir para o calabouço? — Perguntou ele, ríspido.
— Sim, Senhor! — Disse ela, num tom de segurança.
— Repita?! — Ele disse, mais alto.
— O Senhor tem se esquecido do quanto o amo! Do quanto... tenho me dedicado de corpo e alma. – disse em lágrimas, cobrando dele, o amparo – Desejo ir para o calabouço! Só assim posso sentir seus desejos em mim.
— Quando aprenderá a conquistar o que deseja de mim? — Disse ele, se aproximando.
— Quando o Senhor enxergar que existo! — Respondeu alto, quase perdendo o controle.
— Eu a enxergo, mas não quero ninguém me cobrando o que precisa merecer mediante sua entrega. Não está me deixando confiar em seus sentimentos, age como se fosse minha esposa.
— Está transformando o clã num harém, caro Senhor!
Ele tocou seus ombros, descendo as mãos até seus seios, beliscando levemente os mamilos, que se ouriçaram, seguidos de um gemido tímido da menina desejosa de ser possuída.
— Aprenda... quem quer fidelidade, nunca poderá ser uma slave. Um Dominador jamais será possuído, ele possuirá, e quer apenas a entrega e confiança de sua menina... Eu determino quem entra e quem sai de meu clã. Não está aqui para me dizer o que devo fazer. Estamos entendidos?
— Isso não está em nosso acordo, Sir!
— Não temos acordo. Não está escrito em lugar algum que devo ter apenas sua pessoa. Mas você é minha, somente minha, sem reservas e sem concessões, porém não consegue entregar o controle de sua vida, e mesmo assim acha que pode controlar a minha. Agora... termine logo seu dever e seja obediente. Isso é uma ordem! — Disse ele, afastando-se do corpo em chamas, que se excitava a cada vez que ele a fazia se sentir como sua propriedade, parte de si, pedaço de alma dele.
— Sim, Senhor. — Disse Apsel, ao vê-lo sair pela porta sem se despedir. Sentia o cheiro dele em sua pele e no quarto todo. Tocou em seus seios, que tiveram recentemente as mãos de seu Dono pousadas sobre eles... amou-o em silêncio, dentro de sua imaginação, como se ele pudesse compreender a dimensão de seus sentimentos. Pôs-se a chorar compulsivamente sobre o papel com tinta fresca, manchando o braço e rosto.
— Ah, Dono de mim... ama-me! Ama-me... Perdão por ser uma criança mimada a ponto de sempre estragar tudo... gostaria que soubesse que minha vida toda é sua... mesmo quando erro sem consertos. Ainda assim, sou sua... — Dizia para sua sombra, enquanto chorava.
Passou a noite finalizando seu castigo. Dormiu cansada sobre os escritos. Faria qualquer coisa para colocar cada letra das frases feitas, dentro de seu subconsciente insurgente, a ponto de realmente acreditar que deveria se tornar melhor para merecer o amor de seu Dono.


Antes de ir para seus aposentos, andou pelos corredores do castelo até onde estava sua mais nova pupila, a responsável pelos transtornos causados por Apsel. Ele não viraria as costas para quem um dia fora tutor. Sabia da preciosidade de Seren, e que a menina não tinha mais ninguém por ela. Tempos atrás haviam perdido o contato, ela fora levada por outro Dominador, que se opunha a ele. O destino fez com que se encontrassem de forma inusitada, quando a própria menina o procurou, foragida, pedindo proteção. Seren era muito nova e não tinha pai e mãe. Seu corpo era desejado por muitos, que esperavam ser servidos por ela. Tirel não abriria mão da posse. Não desta vez, que tudo conspirou para que ficassem juntos. Trouxe-a para o castelo, e a escondeu num aposento secreto, longe dos olhos curiosos dos empregados e da própria irmã de coleira. Não poderia ter Apsel como única menina em seu clã. Logo ela poderia se sentir a dona do castelo. Até das criadas ela tinha desconfiança, cuidando e cercando todos os seus passos como se fosse sua esposa. Ele já não sabia mais o que fazer. Deveria corrigi-la o quanto antes. Não desejava perdê-la, mas não queria ter uma escrava insolente.
Abriu a porta e se deparou com a cena que fez seus olhos brilharem... Seren estava sentada em frente ao espelho, escovando seus cabelos de forma delicada e quase inocente. O sorriso dela brilhou ao ver o Senhor. Deixou a escova sobre o aparato que sustentava o espelho e correu na direção de Aragorne Tirel, colocando suas pernas ao redor do quadril dele.
— Saudades, Sir... — Disse ela, num gesto impetuoso.
— Eu também, minha menina, mas sabe que não é assim que deve receber seu Dono...
— Eu só sei sentir saudades, Senhor, não sei mais de nada...
— Deve correr para vir beijar as mãos de seu Senhor, e pedir permissão para ser abraçada, jamais abraçar sem permissão.
— Não quer ser abraçado?
— Como mesmo deve se dirigir a mim? — Advertiu-a.
— Bem... – ela riu de modo raso – O Dono de mim não quer que eu lhe abrace?
— Sim, princesinha, desejo seu abraço, mas deve primeiramente pedir permissão ao seu Dono, e de forma correta.
— E quando o Dono de mim irá me mostrar para todos do castelo? Irá me assumir numa cerimônia?
— Sim, tudo ao seu tempo... agora falta pouco. Pratique a paciência. Nunca lastime pelo o que ainda não tenha, seja grata pelo o que recebe, pois só o tem, porque a quero bem. Consegue perceber isso?
— Consigo sim...
— Sim...? — Ele queria o complemento da frase.
— Consigo compreender sim, Senhor.
— Boa menina... – disse ele afagando os cabelos de Seren, que esperava um pouco mais – Eu sei que deseja estar com seu Dono, mas saiba que ainda não é o momento. Somente a possuirei após anunciar sua chegada ao clã. Não seria justo com sua irmã de coleira, que ainda não teve seu primeiro momento íntimo ao meu lado.
Aragorne Tirel não conseguiu fingir que não percebeu os botões dos seios dela, ouriçados, marcando a veste, e a angústia da pequena diante do corpo dele. Ela o desejava em silêncio. Desejava-o no brilho de seus olhos grandes e amenos.
Sir, mas ela não... nada?!
— Não, minha criança... ela ainda não mereceu.
— Ela me odeia, Sir, eu tenho certeza de que não irá gostar de mim.
— Ela não tem que gostar, menina. Ela apenas tem que aceitar. Aqui, quem gosta sou eu.
Iiih, Senhor, vejo que vim plantar a discórdia.
— Jamais! Você entrou para somar. Apenas isso. Eu não a abandonarei. Deixe de falar besteiras.
Seren se deitou entre as pernas do Marquês Aragorne Tirel, que acariciou ternamente seus cabelos enquanto observava o corpo pequeno da menina, que pedia proteção. A forma frágil como ela se curvava para buscar o colo de seu Dono, encantava-o. Ele admitia ser nobre, e ter em si este aspecto de proteção diante de alguém que parecia um passarinho na palma de sua mão, aquele que não sabia mais voar, por ter dado a ele suas asas. Cuidará dela. Fará com que se sinta digna perante aos seus cuidados. Ela o alegrava com sua juventude e simplicidade, despertava a sensação paternal de protegê-la até o fim.
Seu corpo pequeno e delicado, encolhido no meio das pernas dele, parecia uma obra de arte grega propensa a ser admirada durante noites e noites em claro. Ele acariciou seus cabelos com afeto, e a colocou cuidadosamente em seu colo, levando-a para a cama, ajeitando-a confortavelmente entre os travesseiros de penas de ganso, que mandara fazer especialmente para ela. Beijou sua testa, observando seus lábios tentadores e carnudos. Acariciou sua pele e averiguou a moringa, precisava ter água fresca, caso ela se levantasse à noite com sede. Cobriu-a com a manta macia e apagou as tochas. Saiu do quarto entre um suspiro e um palpitar no coração, a menina conquistara nele lugares reservados à proteção, jamais fora assim antes. Trancou a porta com cuidado, e partiu para seu merecido descanso.


Está na Amazon aqui
No impresso estará na Bienal, estande EllA, depois, nas melhores livrarias.

0 comentários :

Postar um comentário