Meu Senhor - parte 3




Caía uma chuva fina, apertada e ininterrupta, que somente deixava penetrar um dia amortecido na grande sala de jantar, um tanto sombria. Uma penumbra envolvia os aparadores de madeira escura, o buffet maciço e guarnecido de velhas faianças e os quadros de paisagens assinadas por nomes conhecidos, que decoravam as paredes recobertas de antiga tapeçaria. Somente uma mesinha, colocada bem perto de uma das janelas, lograva claridade mais ou menos o suficiente.
Lorde Olaf Lamont caminhou até a sala de estar e sentou-se de frente à lareira, em sua poltrona favorita, coberta por veludo vermelho, detalhadamente bordada por fios nobres. Ouvia o estalar dos gravetos, e deixava o pensamento rumar pelos caminhos que o perturbavam sempre repentinamente. A imagem imaculada de Brigith, aquela que lhe roubara a afeição de um modo avassalador, e assombrava o castelo. Ele a via em tudo que olhava, ela estava ainda ali, sua alma perambulava, perdida, como no último dia em que a viu naquela mesma sala, presa em cada parede e artefato.


 O espectro da moça que ali se encontrava sentada, estava com a cabeça abaixada sobre a roupa branca que consertava, não se via mais do que o delgado busto, a alva nuca e os cabelos sedosos, de um castanho argênteo, formando um enrodilhado espesso e bem repartido ao meio, na frente. As mãos delicadas e pequenas que manejavam a agulha eram bem-feitas, mas atrigueiradas, endurecidas, como as de quem dirige uma casa. Os olhos do Lorde marejaram, como se fosse incapaz de prosseguir com a imagem na mente sem se emocionar. Ela se foi como quase tudo em sua vida. A morte precoce, quase um mistério que ainda não fora solucionado, atormentava sua mente como agulhas a furarem toda sua alma. Fora sua preferida, a menina dos lábios doces. Agora tudo não passava de entulhos e cenas recortadas, beijos, abraços, a pele avermelhada pelo chicote... Como a desejava ainda, como se fosse não a primeira, e última mulher de todos os calabouços, sobretudo, a única capaz de lhe fazer novamente voltar a sorrir, como se livre fosse apenas no dia em que a capturou e a tomou como sua.
Lembrou-se de quando ela fora capturada à base de cordas reforçadas, que não sucumbiam à fúria da mais arisca das donzelas. Os olhos do Lorde estavam pousados no rosto angelical de sua presa enquanto seus homens a traziam para a carruagem, como fora ordenado pelo Marquês, que permanecia pasmo, boquiaberto perante a beleza estonteante de sua futura slave. Era uma tarde inesquecível, que se findava num belo pôr de sol dourado. Ele desejava que a claridade do dia não se dissipasse nas trevas para poder olhá-la só por mais um minuto.


Ela morrera no verão seguinte... levou seu sorriso e matou sua fome e sede em ser Dominador. Estava ali por motivos óbvios desde este evento, negando-se a manter um número maior de slaves no castelo, caso isso dependesse dele. Os ensinamentos com as práticas eram estritamente referentes à sua colaboração com Siv, nome dado ao castelo e suas gerações passadas, cujo objetivo era manter a tradição de seus antepassados ao lado do planeta Old. Assim fora recomendado através de cartas conservadas entre seus pertences.
Escutou o tilintar do molho de chaves. Ajeitou-se na poltrona, a fim de esconder do mundo seus sentimentos obscuros, secando com a ponta dos dedos, a lágrima tímida que insistia em escorrer pela face apática. Ninguém jamais imaginara que seu mundo fora destruído por uma escrava. Não deixaria transparecer, muito menos, aos Marqueses do castelo. Primos, em primeiro grau, mantinham-se unidos na disputa. Ninguém abandonaria o castelo até que Os Superiores de Old anunciassem o novo Rei.
— Sempre absorto em seus pensamentos, meu Nobre... já não está na hora de voltar a constituir seu clã? — Perguntou Marquês Aragorne Tirel, distraído com seu cachimbo, enquanto observava sua canne.
— Não é o momento, e não é prioridade também neste instante. — Disse ele, com intenção de encerrar aquele assunto mal iniciado.
— Precisamos da dominação para manter nosso contato com Old. Ademais, meu caro, isso está em nosso sangue... como não sente falta da prática?
— Gostaria que o Lorde não tratasse de tais questões íntimas, referentes à minha pessoa, apenas se desempenhe o melhor que puder em suas próprias responsabilidades... Sei que preciso manter a energia de Old aqui, mas a tenho feito aplicando os ensinamentos Sivianos às vossas escravas. Portanto, caríssimo, não se preocupe com a minha parte. Sei o que devo fazer, mas não quero fazê-lo apenas para realização de meus desejos.
— Não sente falta de... — Fora interrompido pelo Lorde Olaf.
— Passar bem, meu caro. — Disse, passando por Marquês Aragorne Tirel, que se conteve num riso pequeno, com o cachimbo no canto esquerdo da boca. Ele sabia o que passava no íntimo do Mestre, mas não perderia uma provocação para deixar sempre bem frisado a linha demarcatória da rivalidade entre ambos.
— Caro Mestre, não está escrito em lugar algum dos ensinamentos, que para ser Dominador temos que nos apaixonar ou viver um romance...  — Reforçou a provocação.
— Não prostituo meus instintos, nobre amigo. — Deu as costas para Tirel.

***
Aragorne desceu da carruagem, estacionada na frente da escola da bela que não saíra de sua mente, desde o dia que a encontrara. Ele tinha certeza de que não se engara com a menina cujos olhos claros eram hipnotizantes. Ela era escrava de alma. Não era à toa que era atraída pelo castelo como uma presa rara que buscava por sua própria identidade.
Mas o experiente Marquês sabia... não se ganha o corpo se não tiver a mente e a alma da slave por completo, por mais que ela se dedique fielmente, este papel sempre será do Dominador. Ele não tinha o hábito do rapto, faria isso somente em último caso, quando suas energias se esgotassem mediante o cansaço. Preferia ver a menina se entregando aos poucos, com os braços abertos, pedindo para que fosse tomada, desejando ardentemente momentos juntos, caso ela passasse por todas as provas que a admitisse como sua. Talvez fosse por isso ele era o mais amado entre todos os outros Dominadores do castelo.
A raiz da submissão encontra-se dentro da menina, e requer cultivo e preservação, como um jardim que renderá flores e frutos. O domínio vem do Senhor, mas o poder sempre será da escrava. Tirel reconhece o ser magnanimamente superior da alma feminina, embora nenhuma, até o presente momento, atingira seu coração.
Ele a viu de longe, observava-a sem que ela percebesse sua presença. Era bem desenhada de corpo, embora demasiadamente delgada, sua fragilidade dobrava-se como um caule fino sob o peso de algum cansaço físico ou moral.
 Os lábios dele fatigaram... já podia senti-la sendo dele desde o primeiro momento. Observou atentamente o contorno do corpo, das mãos e rosto. Notou a curva leve que fazia em seus cabelos tão claros, e a doçura estampada no sorriso. Sem querer, percebeu-se sorrindo com ela, como alguém que ficara bobo de um minuto para o outro. Mal podia esperar por vê-la ajoelhada aos seus pés. Joelhos alvos, que envermelhariam sem o mínimo esforço.
Ele se aproximou, movido pela força de seus desejos. Desejava induzi-la, mas ela era quem o fazia neste momento. Ele queria se encontrar no silêncio daquele olhar, que agora ficara inerte, vendo-o chegar mais perto. Marquês Aragorne se perdeu novamente, sem saber onde estava. Seu desequilíbrio tornara-se o ruído de seus pensamentos... Não deixava de imaginar um segundo sequer, as costas nuas diante dele, pele branquinha, lisa, sentia que a menina era insaciável... Sua intuição vinha da alma, estava direcionado ao mais surpreso dos sentimentos, como se uma fagulha de esperança o tocasse, e uma chama acendesse por dentro, retirando-o da escuridão. Desejava repousar seus sentidos no corpo pequeno, permitindo que a alma da menina fosse guiada por suas mãos... chegando à carne, à dor e ao prazer sem limites.
Parara em frente à bandida, que acabara de deixar sem reação um Dominador experiente e preparado para o domínio. O arrepio na pele dele, o frio no estômago, a impressão de que estava para acontecer a inquietude, todos os sentidos ficaram em alerta, e, a respiração, descompassada. A menina estava sendo observada, colocada à prova sem perceber.
— Acredito que isso seja seu, senhorita... — Disse, entregando a ela o estojo.
As mãos alvas e levemente trêmulas tocaram seu pertence, e não conseguiu forças para levantar os olhos.
— Agradeço. — Disse, ainda olhando para o chão.
Suavemente, ele levanta uma das mãos e toca no queixo dela, que fecha os olhos e sente o contato dos dedos dele em sua pele.
— Por que não me olha nos olhos? — Disse, ainda com a ponta dos dedos no queixo de Charlote.
— Já lhe agradeci. — Tentou desviar do toque.
— Vim lhe fazer uma proposta. — Disse o Senhor, retirando sutilmente os dedos dela.
Charlote o olha timidamente nos olhos, que retalham de imediato sua paz.
— Estou precisando de uma professora no castelo. Lá, temos vários serviçais que não podem se ausentar para estudar, e... – ele pensou nas meninas, mas certamente não tocaria neste assunto com ela – e outras pessoas que moram lá, enfim, gostaria que aceitasse a proposta de lecioná-los, para tanto, estará disponível um quarto de luxo no castelo para abrigá-la. Devido aos diversos períodos que precisará lecionar, levando em conta aos diferentes horários em decorrência da disponibilidade dos empregados, seria justo que lá morasse. Posso cobrir dez vezes mais o que ganha nesta escola, e prestar toda assistência à sua família.
— Como sabe sobre minha família? — Perguntou ela, surpresa, pois jamais vira aquele homem, e não imaginava como ele poderia saber sobre o que passavam.
— Todas as pessoas que trabalham comigo, são anteriormente observadas. Não levo qualquer pessoa para dentro do castelo, a quem não posso confiar totalmente.
— Como sabe que poderá confiar totalmente em mim? — Abaixou os olhos, sentindo-se constrangida por ter sido investigada.
— Eu não sei. Eu sinto. — Os olhos dele ainda chicoteavam a pele alva da menina.
— Preciso ir... — Disse ela, arrumando os cabelos.
— Espero a senhorita amanhã pela manhã.
Antes que ela dissesse algo, o homem ajeitou seu chapéu, e se retirou, com meio sorriso nos lábios, certo de que a resposta viria positivamente. Ele poderia capturá-la, caso ela resistisse ao seu chamado. Poderia arrancar dela tudo que seus desejos clamavam naquele momento, ávidos pela submissão tão esperada. Mas preferia que Charlote viesse por sua vontade. Assim como deveria ser.


Após tanto pensar, vendo a situação de sua família cada vez mais caótica, Charlote se revira na cama durante a madrugada. Sabia que não haveria outro meio de solucionar seu problema. Mordia o lábio, podia sentir a energia daquele castelo tomando conta dela. Fechou os olhos, e novamente o olhar daquele homem misterioso invadiu seu ser, sem que ela pudesse entender a maneira corrosiva que aquela lembrança a fadigava por dentro.
Antes que o dia amanhecesse, levantou e escreveu a carta para seus pais, prometendo enviar dinheiro assim que pudesse. Pediu para que não se preocupassem, pois estará em segurança. Prometeu que nunca mais passariam por dificuldades, e que sua mãe podia agora dormir sossegada. Tudo estará bem. Em breve dará notícias.
Arrumou sua mala rapidamente. Não tinha muito a levar, mas pegou alguns livros e as poucas mudas de roupas que tinha. Saiu apressadamente.
Ao chegar à frente do castelo, tocou o enorme portão de ferro e sentiu a energia que ele emanava. Era impressionante... uma corrente elétrica atravessava sua mão e causava uma sensação de conforto. Afastou-se rapidamente ao perceber que alguém surgia por uma fresta do Portal.
Marquês Aragorne a espera. — Disse um homem alto e forte, uniformizado, que mal a olhava nos olhos, mas Charlote percebeu a beleza nos traços bem marcados no rosto dele.
O nome do Marquês causou nela uma espécie de catarse anônima. Jamais fora citado, mas sentia como se já soubesse que era essa sua graça. A cada passo que dava, olhava tudo ao seu redor. A vegetação dentro do castelo era de um verde desconhecido, parecia de plástico devido ao brilho nas folhagens. Por todos os lados havia vida em meio ao jardim com flores diferenciadas. O perfume das plantas invadia o ar, a professora se sentia extasiada enquanto reparava a entrada subterrânea para o interior do castelo, que continha uma escada feita de pedra bruta.
De longe, ela ouvia os passos de alguém enquanto se aproximava de algum lugar que aqueles corredores, que mais pareciam infinitos, levavam seu corpo trêmulo. Sabia que era ele que vinha a seu encontro, só não sabia dizer como sabia. Sentiu as têmporas suarem, por um momento pensou em voltar para casa.
Diante dela, ali mesmo no corredor, passou a olhar de baixo para cima, toda a extensão do corpo a sua frente. A bota ia até os joelhos, cobria a calça muito justa, feita de um tecido que colava no corpo forte. À volta do quadril, um cinturão de couro coberto por rubis, e a camisa branca com fios de seda, moldava o peitoral forte do Dominador. Acima do lenço vinho de linho que cobria o pescoço, a barba bem-feita delineava os lábios carnudos entreabertos. Engoliu em seco, precisava de um tempo para pensar sobre os motivos de estar ali.
— Muito bem, senhorita... – ele disse num meio sorriso com e o timbre grave. Olhou para o guarda que a acompanhava e ordenou que se retirasse. Esperou que o rapaz se distanciasse e se aproximou de Charlote com o olhar firme – Estará bem protegida. Não há nada a temer.
Ela sentiu o hálito bom, e percebeu o branco dos dentes perfeitos.
— Agradeço. — Respondeu, sem graça.
Ele tirou das mãos dela a mala quase vazia, tamanha era a leveza.
— O que traz aqui?
— Pouca coisa. — Ela disse, tentando esconder sua intimidade.
— Não se preocupe. Uma criada irá lhe acompanhar mais tarde até o aposento de roupas femininas. Lá temos muitos vestidos e tudo que precisar de vestuário.
Achou estranho, mas era melhor não perguntar nada.
— Não se preocupe também com isso. Logo entenderá. – disse num sorriso, desviando o olhar assim que ouviu rumores vindos do lado de fora – Vamos. — Chamou meio apressado, pareceu preocupado com algo.
Assim que a acomodou em um aposento, saiu apressadamente.
Olhando para o quarto luxuoso, com móveis todos revestidos de veludo e cortinas de cetim, jogou-se na cama confortável, tentando acreditar no que estava acontecendo.

Do lado de fora, cavalos relinchavam por causa das mulheres que acabavam de chegar, amarradas em uma corda. Olhavam, iradas, para os guardas que as forçavam a andar em direção à entrada lateral do castelo. Aragorne deu um sinal para que os criados parassem, e olhou atentamente para cada uma delas enquanto segurava sua bengala.
— De quem são? — Perguntou aos guardas, admirando a beleza selvagem das jovens.
— Propriedade e encomenda de Marquês Fendis Niord.
Seus olhos atentaram-se mais à ruiva de cintura muito fina, modelada por um corpete branco, já sujo devido à captura. Ela o olhou e cuspiu de imediato em seu rosto. Com cautela, Aragorne pegou de seu bolso o lenço, e limpou ainda olhando para ela, num misto de curiosidade e instiga.
— Levem-nas! — Ordenou.
Seguiu logo atrás das meninas, em passos firmes, os olhos fixos nos pés e no jeito de caminhar da menina ruiva, que o fazia apertar os dentes, forçando o maxilar. Não sabia exatamente o que ela tinha que o atraíra logo que a vira.
Abriu a porta do escritório do Marquês Fendis, e o viu atrás de sua mesa, assinando papéis. O queixo quadrado, cabelos escuros e olhos claros, concentrado no que fazia.
— Ora, ora, meu caro amigo... pelo que vejo, deseja aumentar consideravelmente seu clã. — Disse, de forma irônica.
— Nada melhor que aperfeiçoar o dom das práticas, não acha, caro amigo? — Respondeu com a mesma ironia.
— Certamente... Veja, serei direto e o mais franco possível. Quanto quer pela menina ruiva?
Fendis largou a pena, levantou-se e olhou para os lados, não acreditou no que acabara de ouvir. De todos, era o mais alto. Sádico até os dentes. Era esta a emoção que o movia.
— O que quer dizer?
— Quero dizer, caro amigo, que desejo comprar a menina ruiva. Diga o preço. Estou disposto a pagar.
— Ela não tem preço, meu caro... é um tesouro raro, descoberto por mim. Não estou disposto a negociações. — Disse encerrando o assunto, virou as costas e voltou para seus afazeres.
Aragorne ficou parado por alguns instantes, tossiu na intenção de achar as palavras certas, e finalmente se pronunciou.
— Interessa-se por uma troca? — Tinha os olhos fixos nos olhos de seu adversário de Siv.
— Qual troca?
— Minha mulata por sua ruiva.
— Você é esperto, caro amigo, mas é um canalha!
— Pense na oferta. Dê-me a resposta depois. Não tenho pressa.
— Um aviso, antes de sair. Jamais coloque os olhos ou um dedo em minha menina. Espero que tenha entendido o recado.
— Jamais colocarei qualquer olhar ou mãos em sua preciosidade... mas cuide bem dela, caso contrário, estarei por aqui. — Sorriu e deu as costas para Fendis, que se mordeu em silêncio enquanto apertava o cabo de seu chicote feito de couro cru, que estava sobre a mesa, sempre muito perto de suas mãos. Sabia que Aragorne sempre conseguia o que queria. Este era seu maior receio. Mas não conseguirá a coroa de Siv, isso ele garantia a si próprio. Nem a posse de Kemyle. Ela o pertencia desde o momento em que olhou em suas curvas bem-feitas e reparou em seu gênio difícil. Tinha sede em domá-la. Sonhou por noites marcar a pele clara. Era o que deveria fazer para conquistar o respeito que precisava e ser reconhecido como seu Senhor. Não abriria mão, mesmo sendo oferecida a ele, uma troca tentadora... Apsel… jamais se esquecerá do dia em que a viu manipulando os criados do castelo a troco de informações sobre uma possível menina que Aragorne escondia em algum lugar. Ela era perfeita para o adestramento. Ele não podia se esquecer dos seios fartos e lábios carnudos, furiosa, ávida por ser domada.


Fendis Niord examinou detalhadamente cada uma de suas pupilas. Os olhos dele reviravam os detalhes nos corpos e peles, nas curvas marcadas no tecido das roupas. Olhou obcecadamente para Kemyle, tentando compreender o que havia nela que despertou tanto o interesse de Aragorne. Os cabelos ruivos e crespos, olhos curiosos e sobrancelhas arqueadas lhe davam um ar de superioridade e sofisticação. Ela ansiava por doma, ele não sabia dizer de onde tirou aquela impressão, mas era algo tão nítido quanto a luz lá fora.
Suas mãos podiam sentir a superfície lisa de sua pele mesmo sem tocá-la. Com força, tocou no cabo do chicote que trazia entre as mãos, por detrás das costas. Prendeu o ar, olhando para o magnetismo que havia nos lábios bem pintados, semiabertos. A personalidade estava exposta no olhar, que atiçava os instintos sádicos que respiravam por onde houvesse vida nele. Tocou o queixo afilado da pequena, que virou o rosto de imediato, provando que sua insolência era seu motor combustível. Fendis sorriu maliciosamente, sabendo desde já que não abriria mão dela. Daria trabalho adestrá-la, queria a pele macia sob o seu chicote. O gemido ávido pela dor. Foi desejo à primeira vista. Atrevida. Insolente. Dele.
Do lado direito de Kemyle, Domeniquè tinha um ar de mistério. Os olhos, muito vivos e expressivos, logo denunciaram a luxúria que sobressaía de qualquer expressão que fizesse. Sentiu desejo de puxar os cabelos dourados a ponto de sentir o pescoço ceder enquanto mordia os lábios sedosos. Ela não disse nada, apenas correspondeu com a mesma intensidade no olhar.
Do lado esquerdo, Friga. Mulher encorpada e esguia. Olhou para a bela anca, que era percebida facilmente. Sabia exatamente o que fazer com ela no momento certo. Ao perceber os olhos de seu Dono sobre seu traseiro, ela se intimidou, baixando o olhar, não desejou que ele descobrisse seus segredos mais secretos. Fendis Niord tocou em seu queixo, curioso. Novamente ela baixou o olhar, tentando esconder seus pensamentos. Ele não sabia o que esperar de sua polaca.
— Sabem o que estão fazendo aqui? – ninguém se atreveu a responder. Apenas Kemyle revirou os olhos para cima, demonstrando-se fatigada com a situação − Seus pais já receberam por cada uma de vocês. Fiquem tranquilas. Vocês foram analisadas durante meses, cada uma tem um traço que a caracteriza como... o tipo de mulher que gosto, sobretudo, que sentirá prazer de me dar o que quero. Portanto, guardem o ressentimento. A partir desse momento vocês são minhas, exclusivamente minhas, estão sob minha responsabilidade e cuidado. Tudo que lhes acontecer direta ou indiretamente, me atingirá. Prometo zelar, proteger e amar cada uma de vocês como se fossem únicas e, para mim, são. E a mim, devem respeito, lealdade e obediência.  
As meninas permaneceram como estavam. Somente Domeniquè o olhava, com a mesma lascívia de antes. 
— Alguma dúvida? – ele pergunta, na tentativa de se aproximar de suas meninas. Como não houve resposta, continua – Ótimo! Com o tempo aprenderão a me amar, por hora, eu mando, e vocês obedecem. — Disse apontando para Kemyle, que o desafiava.
— Será obedecido, caso merecer meu respeito.  
— Como é? — Disse ele, puxando-a pela nuca de forma brusca, sem piedade. Kemyle o encara sem receio, cuspindo fogo pelos olhos. 
— É isso mesmo que você escutou. — Diz ela com desprezo, ignorando o ato bruto do sádico. 
— Para você, o tratamento é Senhor. Entendeu? — Perguntou ao deslizar os dedos entre os cabelos ruivos, puxando-os pela nuca até que o rosto dela estivesse bem rente ao dele. Ela sentiu sua respiração. Ele cheirava bem, mas a menina novamente ignorou suas impressões. 
— Conquiste o tratamento que quiser.
Marquês Fendis levou o chicote até os lábios dela e os contornou com cuidado, colocando o cabo do acessório nos lábios entreabertos da moça.
— Não se preocupe! Você vai reclamar, mas logo se acostumará. —
Com uma corda azul, ele atou os pulsos dela um no outro, puxando-a pelas duas extremidades soltas, e saiu dessa forma pelo corredor do castelo.
Entraram numa enorme sala com o chão coberto por um tapete vermelho com pelos densos e almofadas de cetim. No centro, uma poltrona que imitava um trono. Ao lado direito, os olhos de Kemyle observaram uma porta de ferro grande.
— Curiosa, menina? – ele sorriu, sarcástico − Ali se encontra o remédio para sua rebeldia. 
Ela não o olhou quando ouviu seu comentário. Sentia-se atraída em segredo. Domeniquè também observava a porta com a mesma lascívia de antes no olhar. Friga continuava alheia a tudo, apenas olhava para o chão, da mesma forma como adentrou ao castelo.



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